OCUPANDO O LATIFÚNDIO ELETROMAGNÉTICO

Rádio Alice Através do Espelho (1ª parte)

Publicamos a primeira parte de um artigo interessante (e, em muitos pontos, polêmico) que relata a importante experiência de luta e organização da Rádio Alice (Bolonha, Itália, anos 1970). O responsável por esse escrito é o Mauro Sá Rego Costa, professor da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e ativista da Rádio Kaxinawá.  Essa é a primeira parte deste artigo, que publicaremos aos poucos nos próximos dias e semanas. Podemos não concordar com tudo o que dito pelo autor, mas vale como momento de reflexão coletiva.

Relembrando o que já havíamos escrito aqui em outra ocasião, a partir dos anos de 1970, período de forte movimentação política e social autônoma, inúmeros coletivos começam a desenvolver atividades que questionavam o modelo atual de comunicação que a grande imprensa ofertava. Grande parte das reportagens produzidas pelos grandes jornais e Tvs tinham como intenção clara apenas criminalizar e deslegitimar os movimentos sociais e pessoas que estavam combatendo de forma autônoma, desde o final dos anos 1960, o capitalismo em várias cidades europeias. As rádios livres (tendo com precursora, justamente, a Rádio Alice) participam desse turbilhão de debates e ações coletivas – e é justamente isso que retrata o texto a seguir.

E, por fim e também retomando uma ideia que perpassa todas as nossas atividades, nunca é demais lembrar de que uma das melhores formas de continuarmos a renovação, crítica e superadora, de um movimento autônomo – como são as rádios livres – passa pelo conhecimento de sua história de luta e debates. Eis aí, portanto, mais um passo dessa importante tarefa coletiva.

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Rádio Alice Através do Espelho

Gilles Deleuze. Política e Poética Estóicas na Teoria do Rádio. [1]

Mauro Sá Rego Costa [2]

Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ –

Rádio Alice transmite: musica, noticias, jardins floridos, conversa fiada,  invenções, receitas, horóscopos, filtros mágicos, amores, boletins de guerra, fotografias, mensagens, massagens, mentiras… (uma chamada da Rádio Alice)

Rádio Alice é uma experiência paradigmática de comunicação no contexto de um  modelo sócio-existencial-político-econômico que se materializava como projeto  nos anos 70 na Itália. Bologna em 74-77, tempo de gestação e vida de Alice, pode ser comparada à Paris de 68: um imenso laboratório ético-político construindo as bases para um mundo que virá. Sua gestação foi também movida pela publicação do primeiro dos grandes tratados políticos desse mundo que virá: Lógica do Sentido [3], de Gilles Deleuze, um livro sobre Alice.

A primeira ruptura está na concepção de Alice de contra-informação – “contra-rádio” – centrada na enunciação e não no enunciado. Não se trata só do conteúdo da informação a ser contrariado. O que promove o Capital na mídia em geral não é, principalmente, o explícito nas palavras das notícias, comentários, letras de música, publicidade, mas a arquitetura do “meio”, inseparável de seus recursos retóricos e poéticos. Talvez a publicidade seja o modelo mais evidente. Os objetivos de uma boa peça publicitária não são claramente explicitados. Publicidade é poesia e sedução, é fazer a corte. O Capital nunca fala de si, de seus propósitos e funcionamento, com clareza – já nos ensinava Marx – ou seria rejeitado de cara. O Capital é um sedutor. Assim, a crítica ao Capital, com seu ar de arrancar os véus, de  “eis a verdade”, é sempre ineficaz. Dessa maneira se organiza, a operação comunicativa e política (toda comunicação é política, e vice-versa) de Alice.

Em Lógica do Sentido encontramos os princípios e o método desse projeto de comunicação e política “através do espelho”. Lógica do Sentido é um livro sobre organização e desorganização,  aparecimento e desfazimento do sentido; sobre os poderes da  presença e  da ausência do sentido. É um texto político estóico (como os de Lewis Carroll) sobre os potenciais e fluxos do sentido e do não-sentido e de como os dois se co-pertencem. Um livro para o futuro. Só um grupo como o da revistaA/traverso, os maodadaístas, e outros ativistas do nonsense organizados em torno de Alice poderiam percebe-lo tão rápido e toma-lo como cartilha de guerrilha midiática.

Talvez a primeira questão, apontada por Deleuze, e que deve subverter e tornar ininteligível o projeto revolucionário de Alice para o conjunto da esquerda italiana da época, seja sua concepção do tempo.  O tempo estóico, que Deleuze rouba do magnífico estudo de Victor Goldsmith  e do artigo de Émile Brehier [4],  contraria o tempo hegeliano que Marx utiliza. Não há seqüência entre passado, presente e futuro e portanto situa dialética da História. O presente é eterno e material, presente contínuo, corpóreo,  enquanto passado e futuro são incorpóreos: o passado como memória e o futuro como expectativa, não têm corpo. Um materialismo do tempo. O tempo não tem matéria. O presente é feito de causas, todas as causas são materiais, já os efeitos se fazem apenas na superfície dos corpos – não há relação entre causa e efeito. Não-linearidade do tempo.

Ora, esta concepção do tempo cai como uma luva na concepção de mídia eletrônica, que McLuhan formula melhor  que a Escola de Frankfurt (com a exceção de Benjamin [5]). O caráter marcante da mídia eletrônica – telegrafo, telefone, rádio, TV, telemática – é o tempo imediato, da comunicação sem intervalo, o presente contínuo. Esse curto-circuito do tempo cronológico, do tempo espacializado, “atualiza” a concepção estóica não-linear do tempo. Esta é a revolução, percebe,  claramente, Alice.

É neste sentido que “o meio é a mensagem (o meio é a massagem)”: aspectos técnicos da enunciação tornam-se determinantes sobre o enunciado. Como Alice se apropria deste movimento?  Maria Antonietta Macciochi  acompanhou de perto a jornada da Rádio Alice, coincidente com sua própria expulsão do Partido Comunista Italiano, contada com elegância e humor em Aprés Marx, Avril. Um dos episódios, que, segundo ela, prepara o clímax do fechamento da rádio em março de 1977, foi a transmissão ao vivo da passeata estudantil-operária para perturbar a presença de G. Lamma, presidente da CGT [6], em Bologna.

Principal palavra de ordem: “i Lama sono al  Tibet” (os lamas estão no Tibet). Os repórteres maodadaístas da Rádio Alice se espalham ao longo de todo o percurso da passeata. Fazem a cobertura, como sempre, fantasiados: um pirata, árabes, arlequins, índios americanos, fadas e bruxas. Entram em todos os lugares por onde a passeata passa, passou e passará, e entrevistam quem encontram. As pessoas na rua, dentro e fora da passeata.  Uma hora entram num bar, onde homens bebem cerveja, e nem sabem da passeata. “O que você acha da presença do Lamma em Bologna?” “Que lama, cumpade, bebe uma… esquece…” Corta para um estudante baleado pela polícia na linha de frente da passeata. “Uma declaração para Rádio Alice: como você se sente baleado pela polícia comunista da prefeitura de Bologna?”  “AAAH! AAAAAAH! AAAAAAAAAH!!!”.  Ao vivo.

Outra história, que me contou Franco Berardi, numa entrevista para a Rádio Kaxinawá, em janeiro de 2002. O grupo maodadaista passa um trote no Presidente do Conselho, Giulio Andreotti, ao vivo, no ar. Telefona um dizendo ser o senador Umberto Agnelli (dono e presidente da Fiat Automóveis). Andreotti atende em quatro segundos. O suposto Agnelli passa-lhe um sermão: “Como você pensa que a gente pode trabalhar dessa maneira… greves selvagens, manifestações… não há um dia de calma por aqui… quero a polícia, me manda a polícia!!!”.  Andreotti responde no mesmo tom: “Você está pensando que a nossa situação é diferente, em Roma? Aqui, da minha janela, no Ministério… não há um dia sem bandalheira, estudantes, operários, um horror…!!!”  A conversa se prolonga por cinco minutos, com observações cada vez mais absurdas do suposto Agnelli, até Andreotti perceber que está sendo enganado…

Nos dois casos, crítica política “através do espelho”. No lugar do comentário de conteúdo e de argumentação racional contra os absurdos do Poder,  a anedota, como na pedagogia Zen, igualmente irracional e dirigido ao Inconsciente, uma ação de comunicação, ou comunicação, no lugar da interpretação. Como propunha Guattari, a teoria do Inconsciente é um instrumento no movimento de massas [7].

São estas falhas, rachaduras, brechas, dobras, que a comunicação política anti-isso anti-aquilo não conhecia e cuja base teórica é inovadora ainda hoje – trabalhar com o nonsense, com o paradoxo, com os fluxos e intensidades, e não com a lógica argumentativa de líder sindical, parlamentar, partidário, que é ainda o recurso corrente (aparente) da política. Trata-se de atuar sobre a mídia como mídia, apropriando-se de seus meios e virando-os contra si, como já propunham (e faziam), igualmente, Guy Debord [8] e os Situacionistas antes e durante o 68 parisiense. A velha política liberal sempre fingiu essa  cara “racional”, argumentativa; mas a mídia não, a mídia é espetáculo. E, evidentemente, hoje, como já nos anos 60 e 70, a política é espetáculo (alguém apoiaria George W. Bush  por seus talentos de argumentação?). Alice assume isso em todos os seus níveis, toda sua máquina de enunciação. A questão é assumir o paradoxo como principal arma política, o que implica em renunciar às categorias e às classificações  ou às classes.

As informações falsas produzem eventos verdadeiros. A contra-informação denuncia o falso que o poder produz. Assim  o espelho da linguagem do poder reflete a realidade de maneira deformada. A contra-informação restabelece a verdade, mas de maneira puramente reflexiva. Como faz um espelho. Rádio Alice é a linguagem através do espelho. [9]

Alguns princípios de método apresentados por Alessandro Marucci:

A guerrilha informativa praticada pela Radio Alice (…) busca anular a divisão rígida entre ouvintes e redatores para chegar a produzir coletivamente a informação. (…).   O elemento fundamental desta estratégia é que não devem existir notícias e informações produzidas fora do circuito comunicativo, coisa que fazem as agências de notícias, entesourando a notícia para revende-la depois. Haver declarado propriedade social tanto a informação como a música (liberdade de acesso) criaram as bases para superar a concepção da propriedade privada do trabalho intelectual[10]

Ao comentar a influência de Lógica do Sentido na concepção da estratégia comunicativa da Rádio Alice, Berardi aponta também que Deleuze, “decifra os paradoxos atravessados pela heroína de Carroll como metáforas dos mecanismos de perda da identidade”.

Jogar contra a paranóia identitária será uma das características do coletivo da rádio (…) Como será fortíssimo o interesse pela operatividade textual de Maiakovski e pela reabilitação da linguagem do corpo operada por Artaud[11]

Ao falar da linguagem da rádio, Berardi enfatiza que sua qualidade “impura, ou suja” decorre de ser linguagem “falada”.

As vozes na freqüência de 100,6 megahertz transmitiam a possibilidade de liberar a expressão lingüística da obrigação do sentido. Vozes sem imagem, vozes que se intensificam no barulho, ruídos desconhecidos: um dia, com amplificadores especiais foi transmitido o ruído do mato crescendo. Experimento curioso, inocente como a pequena Alice [12].

A herança de Alice, segundo Berardi:

um fluxo contínuo de produção teórica, mesmo diante dos microfones, trazendo temas que apontavam já para as mutações globais: o trabalho como produção do saber, a linguagem e seu controle,  um conceito de sujeito como ponto de cruzamento de energias coletivas.

E o mais importante, a pesquisa de mídia, pesquisa dos recursos próprios do “veículo”  rádio, associada ao resgate do grito de Tristan Tzara, de sessenta anos atrás: “Abaixo a Arte. Abaixo a Vida Cotidiana. Abaixo a separação entre a arte e a vida cotidiana!!!”  Segundo Berardi, “assim se formou uma inteligência criativa e alegre, precursora da atual cultura da rede”.

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[1] Trabalho apresentado ao NP 06 – Rádio e Mídia Sonora, do IV Encontro dos Núcleos de Pesquisa da Intercom – XXVII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação.

[2] Professor Adjunto e atual Diretor da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense / UERJ. Procientista / UERJ. Coordenador da Oficina Híbridos  do Labore – Laboratório de Estudos Contemporâneos -; Vice-presidente da Associação Comunitária de Comunicação, Educação e Cidadania de Vila S. Luís – Rádio Kaxinawá.  maurosa@uerj.br

[3] Deleuze, Gilles. Lógica do Sentido. Trad de Luis Roberto Salinas Fortes, São Paulo, Perspectiva, 1974.

[4] GOLDSCHMIDT, Victor.  Le système stoicien et l’idée de temps. Paris, Vrin, 1953; BRÉHIER, Emile. La theorie des incorporels dans l’ancien stoïcisme. Vrin, 1928, 11-13.

[5] “(…) Benjamin desiste pouco a pouco da forma autobiográfica clássica que segue o escoamento do tempo vivido pelo autor (…) para concentrar-se na construção de uma série finita de imagens exemplares, mônadas (para usarmos um dos seus conceitos preferidos) privilegiadas que retêm a extensão do tempo na intensidade de uma vibração, de um relâmpago, do Kayros.” Gagnebin, Jeanne Marie. História e Narração em W. Benjamin. Perspectiva, São Paulo, 1999, 80.

[6] CGIL – Confederação Geral Italiana dos Trabalhadores, ligada ao Partido Comunista Italiano.

[7] Guattari, F. e Rolnik. S.  Micropolítica. Cartografias do Desejo. Petrópolis, Vozes, 1986.

[8] Guy Debord. A Sociedade do Espetáculo. Comentários sobre a Sociedade do Espetáculo. Contraponto, Rio de Janeiro, 2002.

[9] Franco Berardi. Informazioni false producono eventi veri. Radio Alice, fevereiro 1976.

[10]KLEMENS GRUBER: INTERVISTA di Alessandro Marucci (Il Manifesto/Alias 9 marzo 2002)

[11] Idem, Marucci / Klemens Gruber.

[12] Ibidem, Marucci / Klemens Gruber

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