OCUPANDO O LATIFÚNDIO ELETROMAGNÉTICO

Archive for Março, 2013

A Grade que grita por Liberdades: Programação da Rádio Várzea está no Ar!

Salve a todxs!

Temos o prazer de anunciar que nossa Rádio Várzea (sua também!) está a todo vapor, com um quadro de programas cheio de velhas e novas iniciativas  político-estéticas de ocupação do maior meio de circulação de ideias, ora controlado e monopolizado pelos latifundiários do ar.

De primeira, apresentamos a vocês o promissor Sambarilove: samba de resistência e alegria, amor e ódio. Todas as sextas no seu final de tarde e início de noite. Vem sambar que é nóis que tá no 107,1 FM!

Bezerra_Sambarilove

 

 

malandro_Sambarilove

 

Em breve novos programas chegarão junto na apresentação de suas propostas, ideias e objetivos. Aguardem!


eu COMUNICO, você COMUNICA, a várzea COMUNICA: NÓS COMUNICAMOS!

   No dia 18 de fevereiro de 2013, segunda-feira, nós da Rádio Várzea Livre do Rio Pinheiros, participamos de um momento de interação/intervenção na matrícula dos novos ingressantes na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH–USP).

 

Estávamos transmitindo livremente no vão do Prédio da História e Geografia com nossa antena, na frequência 107,1 FM, e também para o mundo todo pela internet, quando um homem, com crachá da USP se aproximou da rádio e ordenou que desligássemos o equipamento. Não bastou dois minutos de conversa pra ele começar a gaguejar e perceber que não serão ordens da administração que farão a gente se calar. No dia seguinte, o Ilustre diretor Sergio Adorno convocou uma reunião com os representantes discentes da FFLCH. Pauta única: “Rádio Pirata”. Uma reunião sobre a rádio várzea sem os membros da rádio várzea. Começando muito bem o seu mandato, Adorno.

 

     A Rádio Várzea Livre surgiu, durante a greve estudantil de 2002, para questionar o papel dos meios de comunicação existentes em nosso país e nesta universidade. Somos jovens e velh@s rebeldes e impuros que insistem em dizer e a propagar pelos ares o direito de se comunicar livremente e da forma como bem entendemos.

 

Durante esses dez anos temos enfrentado a repressão, independente do lado que ela venha. Esse não é o primeiro ataque que sofremos – seja daReitoria da USP, daAgência Nacional de Telecomunicações (ANATEL), da Polícia Federal ou degrandes corporações empresariais-midiáticas  (os neobandeirantes). Em 2011,2012,2004 e2006 — fomos atacados e resistimos em todos esses anos.

 

Desde o início de 2012, essa ilustre corja de aliados ganhou a companhia da direção central da FFLCH. Primeiro com Sandra Nitrini e agora com o tal do Sérgio Adorno (Não o original, o farsante mesmo). Estamos sendo insistentemente ameaçados e sabotados, na calada da noite, pela direção. Nossas antenas vêm sendo arrancadas, aos fins de semana, por ordem da direção.  

 

Nós já fomos a congregação, já fizemos reuniões com a direção e nada muda. Permanece o discurso sonso e mequetrefe de que “rádio livre é ilegal/ fere a lei/ é um crime/ Não há nada o que se possa fazer”. Parece incrível, mas a direção da FFLCH, juntamente com o silêncio das chefias de departamento, tem se colocado ao lado da violência da lei e se recusado a discutir e a provocar o debate sobre a comunicação no país.

 

Mesmo depois de irmos a congregação no ano passado falar sobre a Várzea e o movimento de rádios livres,  ainda somos obrigados a ouvir que a Rádio Várzea é pirata pelo diretor Adorno! Estamos dialogando com que tipo de gente? Surdo é que não são. REPETINDO, ENTÃO: Somos uma Rádio Livre, não somos piratas ( nós não estamos atrás do ouro…a gente sabe quem tá); não queremos fama nem glória, muito menos pedir espaço mostrando nosso currículo invejável de realizações acadêmicas, como o Adorno fez na campanha para se eleger diretor na ultima eleição da FFLCH.  Aliás, só uma eleição antidemocrática como essa poderia eleger uma pessoa como o Sérgio Adorno. Até o Serra seria eleito na FFLCH.

 

Ocupamos nosso espaço, existindo durante esses 10 anos, fazendo politica diariamente, seja através da OCUPAÇÃO DO LATIFUNDIO ELETROMÁGNETICO, das conversas acaloradas sobre assuntos que nos tocam, em formações ou ações coletivas no espaço universitário. Tudo sempre de maneira publica, pois ocupamos um espaço publico e dele não sairemos.

 

A direção diz que a rádio não pode continuar transmitido, mas que incentivaria e apoiaria uma semana sobre comunicação na USP.  Resposta: Nós não apreciamos quem pratica o famoso “me engana que eu gosto”! Nunca precisamos de apoio para discutir comunicação livre todos os dias nos últimos 10 anos. E não existe discussão sobre comunicação sem a Rádio Várzea no ar.

 

O que queremos, é perguntar:

Por que a FFLCH se nega a discutir a comunicação em todos os aspectos?

Por que não encaram a Várzea de frente, ao invés de ficar chamando reunião na sala da diretoria? Todo mundo sabe onde fica a Várzea.

Por que ficam judicializando a questão e se negando a tratar dela politicamente?

Por que quando confrontados no aspecto da lei com outras interpretações (Há muitos casos de vitória das rádios livres na justiça), eles desbaratinam com um “Veja bem, tem que ver isso aí direito, vamos olhar” e nunca olham?  

Quem está pressionando a FFLCH–USP, dizendo que a Rádio Várzea Livre deve ser fechada? Será que a Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL), e seu mito da interferência, tem algo a ver com essa história?

E a Reitoria da USP, também está pressionando o diretor da FFLCH–USP para que a rádio livre encerre suas atividades? Ou essa coerção é fruto, na verdade, de uma ação concertada das grandes corporações empresariais-midiáticas  (os neobandeirantes) – interessadas que estão em defender a parte que lhes cabe nesse latifúndio do espectro eletromagnético?

Rádio Livre derruba avião?

 

     2013 começa quente e a Radio Várzea Livre do Rio Pinheiros, conforme o período de cheias e a despeito da monopopólio capitalista, vai ocupando as várzeas do pensamento retrógrado digno de um corpo moribundo e seguirá vivão e vivendo enquanto não houver um milhão de Alices no Ar.

 

 

Rádio Várzea Livre do Rio PinheirosSINTONIZE E PARTICIPE! 107, 1 FM LIVRE!

FORA POLÍCIA DO MUNDO!


Mídia e Cultura de Violência

O texto abaixo foi utilizado como disparador de discussão em uma das atividades do Fórum Pelo Fim dos Massacres, organizado em 2012 pela Rede 02 de Outubro como um dos espaços de discussão e memória do Massacre do Carandiru e de outros Massacres cometidos pelo Estado brasileiro.

No Brasil, vivemos em uma sociedade democrática, de direitos e deveres. Nem sempre foi assim, não são todas as formas de governo que ofertam direitos e atribuem deveres. Contudo, por estarmos falando exatamente do regime democrático, sabemos de antemão que tais direitos e deveres não são anteriores à existência humana. Pelo contrário, os pilares e as especificidades das democracias foram, são e sempre serão construídos por homens e mulheres.

Existem os direitos monopolizados pelo Estado, exercidos em função de interesses pautados pelo controle da economia, da política institucional, da educação, da comunicação. Entre estes, e para nós do coletivo Rádio Várzea, merecem destaque o direito de vigiar, de punir, de coagir através da violência sistematizada. Em outro sentido, mas não menos distantes da mão reguladora do Estado e da classe que o domina, existem os direitos adquiridos a partir de lutas sociais históricas, como a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), o Sistema Único de Saúde, a Educação pública e gratuita, o teatralizado direito ao voto, entre outros.

 maes de maio

Como dito anteriormente, em nossa sociedade democrática, o direito de gestão da segurança/violência pública (fazendo da Polícia e de outros aparatos militarizados o seu principal instrumento de ação) é exclusivo do Estado. Sobretudo porque sem este é impossível salvaguardar a relação recíproca reproduzida diariamente entre a defesa da propriedade privada, o desnivelamento social e econômico da população, e a punição daqueles (as) que se encontram à margem do que as leis e códigos penais definem como certo.

A partir desse pressuposto, o Estado fortalece instituições e políticas públicas que executam a tarefa de manutenção da legalidade, lançando mão de ações estrategicamente planejadas, que vão desde praticar a execução sumária de trabalhadores (as) por grupos de extermínio paramilitarizados, a culpabilizar quem não se enquadra no status quo através do encarceramento “juridicamente infundado” (para usar um termo caro aos mais conservadores) de uma quantidade gigante de menores de idade e mulheres e homens adultos, a maioria negros(as), pobres e moradores(as) de regiões periféricas das grandes cidades.

Esta política de perseguição e extermínio se manifesta de diversas maneiras. Atenção redobrada para a existência de polícias, diferentes nas fardas, não nos objetivos, que utilizam como argumento a defesa da propriedade pública e privada, que a mídia comercial nos ensinou a chamar de “Ordem!”, para justificar o terrorismo de Estado ao qual as populações empobrecidas e marginalizadas são submetidas todos os dias.

 Rota mata

Pensamos aqui em uma forma de violência midiaticamente velada, uma constante política do medo, pautada pela opressão sistêmica às camadas da população supracitadas. Curioso observar que os atos de violência propriamente definidos nem precisam acontecer de fato, apesar de a regra ser acontecerem cotidianamente. Eles habitam as mentalidades e colocam-se como instrumento real de efetivação desta política. Por exemplo, o simples fato de um policial militar andar pelas ruas com uma pistola .40 traz muito mais sensação de temor do que sensação de segurança, uma vez que conhecemos a atuação de nossos polícias ao longos dos séculos – de Tobias de Aguiar a Telhada – o modus operandi se mantém.

Também a imagem de um presídio (seja a fachada ou o pátio interno) produz em quem a vê uma sensação de opressão, de sofrimento, de perda do direito à Paz, à Justiça, à Liberdade, e à Esperança. Ou seja, tudo muito diferente do estímulo que deveria desmotivar qualquer forma de atuação que vá contra a tal sociedade democrática de direitos.

Nesse projeto, a comunicação torna-se instrumento de controle social e ideológico, na medida em que omite informações e vozes, e prolifera (no sentido mais infeccioso possível), de forma completamente acrítica, vazia, e desonesta, uma suposta dicotomia entre polícia x ladrão, bem x mal, marginalidade x estado. Constroem-se, assim, conceitos compatíveis apenas com as demandas de uma determinada classe, a dominante, e um determinado modelo socioeconômico: o neoliberalismo e seus pressupostos. Este mesmo modelo que vincula sonhos à aquisição de bens materiais, os quais a maior parte da população nunca terá acesso, por não possuírem meios, propriedades, heranças, nem acesso às numerosíssimas “oportunidades” que nos são concedidas pelo mundo do trabalho.

mulheres presas

Claro, falamos aqui de uma mídia privada e comercial, que atua de forma falaciosa no Brasil devido a permissividade do Estado, que privilegia conglomerados empresariais da comunicação, os quais não apoiam qualquer atuação social minimamente democrática sobre a regulamentação de uma Comunicação popular e abrangente, e que têm pavor ao ouvir falar em classes marginalizadas, defendendo somente parâmetros morais, políticos e sociais que os donos do Lucro reafirmam como “bons”.

Essa mesma mídia que engendra na população um sentimento de insegurança, um clima de guerra, uma polarização fruto da cultura de violência, segundo a qual o cidadão precisa escolher qual lado apoiará, oferecendo como outro lado uma cultura de paz, a paz de giroflex, fuzil, celas, presídios, colete à prova de balas, e sangue pobre derramado.

Rádio Varzea Livre do Rio Pinheiros, 107,1fm


Desconectados, uni-vos! Brecht e a Teoria do Rádio

Publicamos aqui, dando continuidade ao nosso compartilhar e reflexão coletiva sobre a experiência de comunicação livre, um texto sobre as ideias e pensamento de Bertold Brecht em relação às potencialidades de participação e comunicação coletiva que o rádio propicia como instrumento para a transformação social.

O artigo foi originalmente publicado no número 60 (volume 21) da Revista do Instituto de Estudos Avançados de maio/agosto de 2007.

Brecht e a “Teoria do rádio”

Celso Frederico

Não existe nenhuma possibilidade de evitar o poder da 
desconexão mediante a organização dos desconectados?

As reflexões pioneiras de Brecht sobre o rádio estão sintetizadas num conjunto de breves artigos sobre esse então novo meio de comunicação, escritos entre 1927 e 1932, no mesmo período das “peças didáticas”.1 Em ambas as intervenções encontram-se o apelo à participação, o incentivo para que o mundo do trabalho tome a palavra. Os conhecimentos teóricos do teatro épico, diz Brecht, podem e devem ser aplicados à radiodifusão.

O novo teatro e o novo meio de comunicação caminham juntos para realizar o imperativo de interatividade, deixando para trás o antigo conceito que via a cultura como uma forma que “já está constituída” e, portanto, “não carece de qualquer esforço criativo continuado”.

O “esforço criador”, tanto no teatro como na radiodifusão, não se contentava com o “aprimoramento” dessas entidades, de abastecê-las com bons produtos, mas visava à sua transformação radical. Vale aqui lembrar a famosa passagem de “Notas sobre Mahagonny”, escritas em 1930:

a engrenagem é determinada pela ordem social; então não se acolhe bem senão o que contribui para a manutenção da ordem social. Uma inovação que não ameace a função social da engrenagem […] pode por ela ser apreendida. Mas as que tornam iminente a mudança dessa função e procuram dar à engrenagem uma posição diferente na sociedade […] é renegada por ela. A sociedade absorve por meio da engrenagem apenas o que necessita para sua perpetuação. (Brecht, 1967, p.56)

Brecht não tinha ilusões sobre a capacidade de cooptação e neutralização do sistema, e, como marxista, observou muito antes de Adorno o primado da produção sobre o consumo dos bens simbólicos ao afirmar que “é a engrenagem que elabora o produto para consumo”.

As radicais e muito criativas teses brechtianas sobre o rádio e o teatro exprimem, como não poderia deixar de ser, o momento histórico vivido pelos intelectuais alemães, ainda marcado pelo entusiasmo provocado pela revolução russa de 1917 e pela certeza de que a revolução, abortada na Alemanha em 1919, em breve triunfaria.

A agitação política do período foi acompanhada de uma intensa fermentação cultural em que se discutiam o esgotamento das formas tradicionais de se fazer arte e a busca de novas formas de comunicação. Nesse sentido, os alemães reproduziram em boa parte o debate russo sobre o novo papel da arte na sociedade a ser construída.2

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